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ILUSTRAÇÃO: ARQUIVO MOVIMENTO Árvore da Ancestralidade Capoeira

A árvore genealógica da capoeira: cada folha representa um aluno, cada galho um mestre, todos sustentados pela mesma raiz ancestral.


Antes de mais nada, gostaria de falar da minha gratidão por ter sido acolhido em Fortaleza, desde minha primeira visita aqui, nos idos de 1978, quando vim fazer um concurso para a Caixa Econômica Federal. Buscava então conhecer o nordeste brasileiro que me fascinava e criava grandes expectativas.

Mas não era só isso. A Capoeira era minha bagagem principal. Naquele tempo, um capoeirista que tivesse o meu tempo de treino — cerca de cinco anos — já era um contramestre da Academia Tabosa, uma das mais tradicionais de Brasília.

Pelo amor à Capoeira e por meu compromisso com a graduação que trazia, carregava um sonho rabiscado numa folha de papel: o desenho do que seria a minha escola de capoeira, construída num terreno de chão batido, com uma cobertura em palha de coqueiro, com um nome na base do desenho: Academia Terreiro de Capoeira.

Mas após esses mais de 46 anos desde aquela chegada, e ao perceber os esforços da equipe que desenvolveu esta revista, me pego refletindo sobre um ponto bem específico que hoje me ocorre: a construção de ancestralidade.

O Elo da Corrente

Isso significa, primeiramente, que a ancestralidade se remete ao que veio antes de nós. Simples assim. Quem esteve nos ensinando ou quem ensinou a quem nos ensinou é, assim, nosso ancestral na arte da capoeiragem. Outros também tiveram seu papel, foram protagonistas de uma página, uma parte da história da capoeira.

Mesmo que isso nem nos diga respeito diretamente, sempre diz respeito a nós, pois somos um momento na história, um elo de ligação entre o que aconteceu no passado e o que irá acontecer no futuro. Somos esse médio entre esses tempos.

Por isso, é importante dizer: todos os que vieram antes de nós são ancestrais de fato e de direito. Temos, enquanto capoeiristas, a obrigação de honrar esse ancestral que é parte de nossa história, aquele que nos antecedeu e durante seu tempo, sua energia, sua fase auge de força e coragem, desempenhou o papel daquele que segurou a capoeira em seu coração, na sua mente e no seu corpo.

Esse é um elo na cadeia do tempo que fez a capoeira se transportar na história e chegar até aqui: forte, vibrante, reconhecida, universal e planetária. Nós não fizemos isso sozinhos. Nossa história é o agora. Será muito bom se os capoeiristas do futuro nos honrarem. Isso não podemos garantir nem exigir. Mas podemos honrar quem nos antecedeu e, assim, dar o exemplo.

Se alguém aprender a entender que isso seja importante, os que virão nos reconhecerão. Mesmo que nossa capoeira, para eles, pareça um tanto antiga, um tanto ultrapassada.

Somos herdeiros de uma capoeira pacificada, humanizada. Consolidada em sua metodologia e aceita socialmente (até certo ponto) em praticamente o mundo inteiro. Isso significa que estamos vivendo a capoeira num momento em que ela é uma cultura brasileira aceita como pedagogia de educação popular, fortemente implantada nos mais diversos rincões do país e de centenas de outros países.

FOTO: ACERVO PESSOAL Recepção em Angola

Recepção em Angola: um corredor de berimbaus e cantos que celebra o retorno da capoeira à terra mãe e fortalece os laços de ancestralidade.

A Emoção em Angola

Fui recebido há alguns dias numa emocionante recepção em Angola, na África, quando alguns discípulos meus ali fizeram um corredor de berimbaus na saída do aeroporto, entoando músicas de capoeira criadas em grande parte por eles mesmos, saudando minha pessoa e minha chegada.

Fui tomado de uma grande emoção. Diante daquele cenário de recepção tão calorosa, me pareceu até que não merecia aquilo tudo. Afinal, sou só um capoeirista que busca cumprir meus compromissos e responsabilidades para com a Capoeira. Penso sempre assim.

Então me lembrei que a capoeira é sempre um manancial de histórias e emoções que se sucedem. Gerações e mais gerações vão mantendo a capoeira viva, desde os primórdios de sua existência, desde as condições mais primárias onde pioneiros se esforçaram para fazer capoeira, mesmo em condições precárias.

Pioneiros de Fortaleza

Selo Terreiro Foi assim que aconteceu em Fortaleza, onde pioneiros se organizaram como puderam. Alguns treinando nas praias da cidade, onde um ou outro sabia alguns movimentos básicos. Outros começaram trabalhos de montagem de peças folclóricas no SESC, onde emerge o grupo criado pelo Mestre Zé Renato, improvisando os treinos baseando-se nos conhecimentos que o mestre foi buscar onde andou.

Mesmo naquelas condições tão limitadas, aquele trabalho floresceu e permanece formando capoeiristas até hoje, alguns dos quais possuem trabalhos reconhecidos tanto no Brasil quanto no exterior.

Outros foram pioneiros nas rodas improvisadas nas praias, como Haroldo Negão, Ivan Negão e Macaúba — que inclusive ensinava o que sabia aos demais, sendo talvez o primeiro professor de capoeira de Fortaleza. Outros como Alfredinho, Caé, Luciano Negão, Ricardinho e tantos outros pioneiros.

Esses são alguns que se jogaram na capoeira, de corpo e alma. Eles não tinham ideia do que aconteceria no futuro, ninguém podia prever o que a capoeira se tornaria.

O Resgate pelo Movimento

Essa Revista é fruto de um trabalho de amor à capoeira. Sem tempo definido. Os caras que estão fazendo esse trabalho chamado Movimento são obstinados. Já foram criticados por alguns que preferem jogar pedra a tentar entender o que está acontecendo.

Se a gente se deixar levar por conversas negativas, ninguém faz nada diferente. A gente ia se contentar em fazer rodas e batizados e nada mais. Mas ainda bem que alguns não aceitam essas opiniões e seguem produzindo o que ninguém jamais pensou — ou se pensou, não teve competência ou coragem para realizar.

Uma dessas ações vem sendo desenvolvida buscando, nas páginas escondidas da cidade, as pessoas que têm conexões com os capoeiristas do passado. Isso permitiu resgatar muita gente!. Felizmente, hoje muitos deles já esquecidos foram resgatados e tiveram suas histórias registradas nos anais da capoeira do Ceará.

Hoje, o Ceará tem um projeto que poderá garantir que ninguém seja esquecido em sua trajetória. Por mais humilde que seja, todos são importantes na história, todos deram seu quinhão de contribuição.

O Movimento é de todos. Todos somos importantes.

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