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FOTO: DIVULGAÇÃO Mulheres na Capoeira

A roda de capoeira como espaço de resistência e afirmação feminina.


A roda de capoeira, com toda sua ancestralidade, força e resistência, deve ser um espaço de liberdade, expressão e igualdade. No entanto, ainda hoje, o machismo, a misoginia e o preconceito persistem nesse universo muitas vezes mascarados como "tradição" ou "cultura".

As Mulheres, que são cerca de 35% desse universo, ainda são silenciadas, subestimadas, hipersexualizadas ou invisibilizadas dentro das rodas, sejam elas iniciantes, mestras ou referências em sua comunidade. E isso precisa mudar.

A capoeira é, por essência, uma manifestação de resistência contra a opressão. Logo, não faz sentido que ela reproduza as mesmas estruturas de desigualdade que combate. Quando uma mulher é desrespeitada em uma roda, todas as lutas que construíram esse espaço de liberdade e democracia são desrespeitadas com ela. O empoderamento feminino dentro da capoeira não é um favor nem uma concessão. É um direito.

É hora de romper o ciclo do silêncio, de ocupar os espaços com voz, corpo e consciência. A roda precisa ser um microcosmo mais justo, onde mulheres de todas as idades, corpos, cores e histórias sejam reconhecidas e respeitadas não apenas por serem mulheres, mas pelo orgulho de serem mulheres.

Mais do que isso, devemos fazer desse microcosmo, que é a roda de capoeira, um lugar ideal para mostrar que é possível, sim, homens e mulheres conviverem de mãos dadas, com respeito mútuo, solidariedade e equidade. A roda é redonda porque nela todos têm lugar e ninguém deve ser colocado à margem.

Falar sobre equidade de gênero na capoeira é um passo necessário para que possamos refletir o tipo de sociedade que queremos fora dela. A mudança começa no chão da roda, na forma como olhamos, nos ouvimos, nos falamos e nos valorizamos indistintamente. As mulheres não devem pedir espaço. Devem tomar os lugares que são delas por direito.

E para isso, a capoeira tem que ser de todas e todos. Sem exceção. Sem preconceito. Sem opressão. A possibilidade de ser "esquecida" é a materialização de um preconceito específico: o idadismo machista.

Em um ambiente que idolatra a juventude, a produtividade frenética e a novidade, a mulher madura é injustamente associada à desatualização e à lentidão. Sua vasta experiência, em vez de um trunfo, é vista como um peso, um sinal de que "ficou para trás". Em uma sociedade profundamente misógina, o valor da mulher está atrelado à sua juventude e beleza. O homem grisalho é "experiente" e "distinto"; a mulher grisalha é "velha" e "invisível". Nas rodas, onde a imagem é commodity, essa perda é sentida de forma aguda.

Muitas mulheres precisam desacelerar a carreira em algum momento para dedicar-se à família. Quando tentam retornar com força total as "rodas", encontram portas fechadas. São julgadas como "fora do jogo", enquanto homens na mesma situação raramente sofrem essa penalidade.


Elaboramos uma mesma pergunta para diversas Mestras e professoras de capoeira em vários pontos do mundo e em diferentes contextos sociais. Para garantir que elas dialogassem entre si formando um painel rico e coeso, a pergunta foi aberta o suficiente para capturar experiências diversas, mas mantendo o foco nos eixos centrais da questão que são o desafio às estruturas machistas e o fortalecimento das expressões culturais.

Perguntamos a três mulheres capoeiristas: Como a senhora vê a importância do protagonismo feminino na capoeira para desafiar as estruturas machistas que ainda persistem na arte? E de que maneira a capoeira, sob a liderança de mulheres, pode dialogar e fortalecer as expressões culturais?

Joelma Assunção de Sá
Joelma Assunção de Sá Mestra Diamante Corda Preta - Grupo Mandara, Tocantins/Brasil

Vejo que o protagonismo feminino na capoeira é, acima de tudo, um ato de resistência e de afirmação. A capoeira nasceu como luta contra opressão, e quando a mulher assume seu espaço dentro dela, a gente continua esse movimento de enfrentamento, só que agora contra o machismo, que ainda tenta limitar a nossa voz e o nosso corpo dentro da roda.

Aqui em Palmas, no coração do Tocantins, isso ganha um peso ainda maior. Nós estamos em um estado jovem, que ainda constrói sua identidade cultural, e ter mulheres à frente da capoeira mostra para a comunidade e para as próximas gerações que a cultura também é feminina, que ela pode ser conduzida com firmeza e com sensibilidade ao mesmo tempo.

Acredito que, sob a liderança de mulheres, a capoeira se abre mais para o diálogo com as expressões culturais do Norte e do Cerrado. A gente valoriza nossas raízes, traz a força do nosso território e dá visibilidade para a riqueza que existe aqui. A mulher mestra, quando ocupa esse lugar, não só fortalece a capoeira, mas também ajuda a fortalecer com beleza e maestria toda uma cultura que pulsa no nosso chão.

Arminda Celestina Chingualita de Almeida
Arminda Chingualita de Almeida Monitora Aide-Corda Verde escura - Grupo Mandara Angola África

A presença da mulher na capoeira representa a superação de barreiras históricas e culturais que limitaram sua visibilidade neste e em outros espaços tradicionalmente e socialmente assumidos e guiados por homens. Ao assumir papéis de jogadora, cantadora e de liderança, a mulher rompe estereótipos, fortalecendo assim a sua autoestima, elevação do gênero e faz com que outras gerações femininas sejam inspiradas e tenham conhecimento que, nos dias atuais, não existem trabalhos, cargos, profissões ou até mesmo artes que devem ou podem ser apenas praticadas por homens.

A capoeira, enquanto expressão cultural e social, torna-se num instrumento de relevância de empoderamento feminino, promovendo autonomia, igualdade de gênero e inclusão. Dessa forma, a atuação das mulheres contribui não apenas para o fortalecimento da prática, mas também para a transformação social e a construção de uma sociedade mais justa e plural.

Eu, particularmente como mulher africana, pratico a arte capoeira com a finalidade de mostrar para as mulheres que, a prática da capoeira, não tem cor, raça ou gênero, mostrando que é possível conduzirmos ou liderarmos escolas, eventos e rodas de capoeira e até mesmo alcançarmos o grau de mestras, no contexto africano onde há predominância em vários aspectos pelo gênero masculino. Viva a capoeira! Viva as mulheres africanas! Viva as mulheres capoeiristas de todo o mundo!

Regina Pfeifer
Regina Pfeifer Fisioterapeuta e pedagoga - Professora Abelha da Terreiro Capoeira Freiburg/Alemanha

No papel, a igualdade de gênero existe na Alemanha, mas, na prática, a estrutura patriarcal ainda influencia muito o nosso dia a dia. No universo da Capoeira, essa diferença de poder entre os gêneros também fica evidente - seja na ocupação de cargos de liderança, seja na presença dentro da bateria. A roda reflete os papéis de gênero da sociedade como uma lente de aumento e se torna um espaço importante para reflexão e transformação.

Como mulher mais velha e com formação pedagógica, uso minha experiência e minha posição de quem está um pouco fora do padrão para inspirar outras mulheres e ser um exemplo. Quero mostrar que é possível estar visível com todas as nossas vulnerabilidades e, mesmo assim, agir com força e autenticidade. Nas minhas aulas, fortaleço as mulheres para que ocupem seu lugar na Capoeira com naturalidade e confiança.

Através de uma rede de mulheres que atravessa diferentes grupos, promovemos trocas, música e a construção coletiva de um Código de Esporte Mais Seguro. Minha visão é de uma roda realmente inclusiva, onde origem, gênero, idade ou condição física não sejam obstáculos - todxs têm seu valor.

Análise

O fato de termos coletado respostas semelhantes de três mulheres capoeiristas em três cidades e em países diferentes é um dado muito significativo e aponta para algumas conclusões robustas:

1. O Machismo nas Rodas de Capoeira Não é um Caso Isolado, mas um Problema Sistêmico.

Esta é a conclusão mais direta e crucial. Se o mesmo fenômeno é observado e relatado por mestras em contextos geográficos diferentes, isso indica que não se trata de um problema localizado em um único grupo, academia ou cidade. É um padrão que se repete, enraizado na própria estrutura social que permeia a capoeira, assim como permeia outras esferas da sociedade. A capoeira, como microcosmo da sociedade, reflete suas dinâmicas de poder e desigualdade.

2. A Vivência e a Percepção das Mulheres na Capoeira são Coletivas e Compartilhadas.

As mestras e professoras, por serem mulheres em uma posição de autoridade (o que já as coloca em um campo de tensão), têm uma percepção aguçada e semelhante sobre as barreiras e os desafios que enfrentam. A semelhança nas respostas sugere que elas passam por experiências análogas, como:

Relatos convergentes de mestras e professoras indicam padrões de barreiras e desafios recorrentes na roda:

Ritmo do jogo sob controle masculino Toque do berimbau e intensidade da roda frequentemente definidos por homens.
Interrupções e “quebras” de jogo Entradas abruptas de homens para “mostrar serviço” atrapalham a fluidez do jogo feminino.
Assédio velado ou explícito Comentários sobre corpo e estilo (“muito masculina” / “muito sensual”) que desqualificam e constrangem.
Barreiras à ascensão e ao reconhecimento Caminho até graduações superiores e ao título de Mestra mais questionado e demorado para mulheres.
“Dupla jornada” dentro da roda Cobrança simultânea por performance técnica e domínio de conhecimento; para muitos homens, apenas o jogo basta.

3. Existe uma "Voz Coletiva" e uma Consciência de Gênero Crescente na Capoeira.

O fato de as respostas serem semelhantes mostra que as mulheres na capoeira estão dialogando, refletindo juntas e nomeando essas experiências. Há uma conscientização e uma rede de apoio que permite que elas identifiquem e denunciem o machismo de forma clara e uníssona. Isso é um sinal de fortalecimento e resistência dentro da comunidade capoeirística.

4. A Resposta Não é "Ah, mas sempre foi assim".

A semelhança nas respostas fortalece a legitimidade da crítica. Ela tira o problema do campo da "opinião isolada" ou "mimimi" e o coloca no campo de uma análise social consistente. Fica claro que não se trata de um ressentimento individual, mas de uma leitura crítica compartilhada sobre a cultura da capoeira.

Conclusão

O machismo é um elemento estrutural e amplamente reconhecido pelas mulheres dentro da capoeira. A uniformidade das respostas das mestras não é uma coincidência, mas a comprovação da necessidade de uma luta coletiva por um espaço mais justo e igualitário dentro dessa manifestação cultural tão rica. Mas não podemos também deixar de citar que existem mestres que em seus trabalhos dão exemplos positivos de inclusão e respeito e têm a consciência de equidade, igualdade e gênero, realizando em seus espaços um trabalho sério por todos e todas que ali estão. A ideia dessa pesquisa é destacar não apenas o problema, mas buscar as soluções e os caminhos apontados pelas mestras de hoje, herdeiras de uma luta de décadas e dar Voz à Solução.

Desdobramento

Faremos em matérias posteriores nos próximos números abordagens sobre ações positivas e quais são as estratégias que essas mestras e seus grupos utilizam para combater e transformar essa realidade. Até a próxima.

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