Sob o céu de Paris, M. Skisyto lança "Raízes da Capoeira", reafirmando a conexão universal da nossa arte.
#ENTREVISTANum cenário de sonho, entre as águas serenas do Rio Sena e a luz cintilante de Paris, a capoeira ganhou um novo berço. Foi a bordo de um barco que M. Skisyto, em um gesto tão poético quanto histórico, lançou sua obra "Raízes da Capoeira".
Mais do que um simples evento, foi um ritual de pertencimento, unindo a ginga brasileira ao coração da Europa. Para falar sobre este momento singular, sobre a missão de espalhar os saberes ancestrais e as histórias por trás das páginas, temos agora a honra de receber o próprio M. Skisyto. Seja muito bem-vindo, Mestre!
M.C. — M. Skisyto, primeiro, muito obrigado por esta oportunidade. O senhor acaba de lançar seu oitavo livro, "Raízes da Capoeira", em Paris, num barco pelo Rio Sena. Como foi esse momento tão simbólico para o senhor?
M. Skisyto — Eu que agradeço a oportunidade de registrar algumas opiniões e compartilhar informações que podem interessar às pessoas. Esse lançamento do livro aconteceu em alguns contextos. O livro já foi traduzido em 5 idiomas até o momento. Um deles, em francês, foi lançado em duas cidades na França: uma no interior do país, na cidade de Tours, onde estive num evento do Mestre Luiz Junior — um descendente da Terreiro Capoeira do Tocantins que vive na Europa há mais de vinte anos.
O outro foi em Paris, uma coisa que eu mesmo não esperava, pois não tinha nenhuma opção de local e horário para fazer o lançamento. Mas um amigo, o Mestre Beija-Flor, me ofereceu seu suporte, já que ele tem trabalhos há longos anos ali em Paris, inclusive diversos alunos formados.
Foi então que ele me ofereceu sua ajuda para lançar o livro num Péniche, que é um barco que fica estacionado em uma margem do Rio Sena, no centro de Paris. E isso foi realmente emocionante. O barco é um equipamento para atividades como aulas de capoeira, reuniões e outras atividades no seu porão, que é bem arejado e ventilado, oferecendo plenas condições para fazer ali o lançamento do meu livro já traduzido em francês, "Todas as Raízes da Capoeira" (Toutes les Racines de la Capoeira, em francês).
O que mais me impressionou foi o interesse dos capoeiristas franceses, que se mantiveram por quase 3 horas debatendo o livro e questões envolvendo a capoeira.
M.C. — O que passou pela sua mente quando viu o livro sendo apresentado em um local tão distante do Brasil, mas ao mesmo tempo tão conectado com a história da capoeira no mundo?
M. Skisyto — Na verdade, já tenho alguma intimidade com a capoeira fora do Brasil, já que desde os anos 90 eu ando participando de eventos tanto na França quanto em diversos outros países. Na França, eu também já havia estado algumas vezes. Mas o que me surpreendeu e foi realmente inusitado, foi a oportunidade de lançar o livro em Paris. Isso foi muito importante na minha caminhada!
M.C. — "Raízes da Capoeira" chega como uma obra que muitos já consideram um marco intelectual. Qual mensagem central o senhor quer que os capoeiristas e estudiosos levem dessa publicação?
M. Skisyto — A obra é o produto de muitos anos de debruço estudando e ouvindo grandes mestres falarem sobre a capoeira e sobre o seu passado de lutas. Mas, muito além da visão extraída dos relatos e registros específicos sobre a escravidão, eu sou formado em Sociologia e outros estudos sociais, de onde tirei sempre muitos insights (inspirações) para realizar meus trabalhos escritos.
Este livro em particular me impeliu a revelar questões importantes que envolvem a escravidão e sua relação com a gênese da capoeira, desde o Brasil Colônia até o surgimento das grandes cidades, que se tornou o ambiente que propiciou a evolução da capoeira, sua expansão e sua fixação no seio da cultura popular e na cultura periférica das nossas cidades.
M. Skisyto e sua oitava obra: sociologia e vivência se encontram para documentar a história da capoeiragem.
M.C. — O senhor fundou o Terreiro Capoeira em 1979, em Fortaleza, e hoje, aos 72 anos, lança um livro em Paris. Como a capoeira transformou sua vida ao ponto de levá-lo a conquistas como essa?
M. Skisyto — A Capoeira foi sempre a minha mais importante fonte de crescimento pessoal e de ajuda para minha autoestima e autoconhecimento. Eu me sinto um menino que nasceu e cresceu no interior de Minas Gerais, que bebeu da água dos saberes da capoeira e dali extraiu minhas energias vitais, o que mudou completamente minha vida.
M.C. — Por que escolheu o barco no Rio Sena para esse lançamento? Há alguma relação com a ideia de que a capoeira navega pelo mundo, levando cultura e resistência?
M. Skisyto — Na verdade eu nem escolhi necessariamente esse lugar. Ele me foi trazido pelas ondas das energias que a capoeira produz. As nossas relações dentro da capoeira é o grande motor em movimento que nos leva mundo afora, como também nos traz, mantendo a gente sempre conectado com nossas raízes.
Só descobri o que realmente significava um Péniche depois que o Mestre Beija-Flor me explicou! Aí realmente eu fiquei muito eufórico. Era uma conquista que nunca pretendi! Eu fui levado até ali pelas ondas da capoeira, por suas energias e conexões e uma das maiores surpresas que lá vi na minha história dentro da Capoeira.
M.C. — Depois de oito livros e décadas dedicadas à capoeira, como o senhor enxerga o futuro da arte? O que ainda precisa ser feito para expandir essas raízes?
M. Skisyto — Eu realmente me ressinto de muito tempo que fiquei praticamente sem produzir literatura, textos ou trabalhos mais elaborados de capoeira. Embora tenha feito dezenas de palestras nesses meus cinquenta anos de capoeira, eu poderia ter produzido muito mais. O que aconteceu foi que fiquei muito revoltado ao descobrir, após meu primeiro livro ("Capoeira, o Caminho do Berimbau"), o abandono que os novos escritores têm no Brasil. Por causa desse sentimento, fiquei quase dez anos sem produzir.
Hoje eu não me perco mais em esperanças inocentes de que as editoras vão se interessar por obras de capoeira. Mas descobri outros caminhos para publicar os meus livros: as livrarias digitais, como a Amazon, onde passei a publicar meus livros. Ainda tenho diversas obras imaginadas que pretendo escrever. Mas o que mais importa é que os caminhos se abriram e que eu posso levar meus trabalhos a todos os países que eu encontrar algum parceiro para cuidar da tradução.
Sobre o futuro, é muito complicado antecipar o que irá ocorrer. Mestre Pastinha profetizou seu fim — inconcebível ao mais sábio dos mestres! Acredito que ele se referia ao futuro da capoeira! Nem o mais perspicaz capoeirista poderia prever aonde ela chegou nesses últimos 30 anos. Por isso não me arrisco a tentar prever. Mas uma coisa é indiscutível: a capoeira acompanha os movimentos do mundo, portanto, se estamos vivendo uma globalização, a capoeira já é parte de uma cultura planetária, ela irá estar presente nos movimentos do globo e ela será parte do que acontece.
M.C. — A capoeira hoje está presente em todos os continentes, praticada por milhões de pessoas. Como o senhor vê esse momento atual da capoeira globalizada? Quais são as conquistas e os desafios que ainda enfrentamos?
M. Skisyto — É verdade, estamos em todos os continentes. Isso é uma coisa que ninguém jamais sonharia há 40 anos atrás. Mestre Itapoan profetizou isso, apesar das descrenças dos seus mais próximos alunos. Hoje ninguém tem mais dúvida de que está acontecendo, embora muitos de nós ainda não entendam o que isso significa.
Ou seja, com a confirmação da capoeira como cultura do planeta, feita pela própria ONU através de seu braço cultural a UNESCO, que tornou a capoeira uma herança cultural internacional. Ou seja, ela agora pertence a todos os planetas que fazem parte da ONU. Isso exige que a gente tenha olhos e ouvidos capazes de entender o que o mundo conversa sobre a capoeira, sobre suas origens, sobre os seus fundamentos e até a língua que ela fala. Até onde irá continuar falando português e os nossos verbetes criados pelos capoeiristas, desde seus tempos imemoriais?
Esses são os primeiros desafios visíveis para essa nova realidade atual. Infelizmente, por escolha ou por falta de atitude, alguns poucos estarão aptos a serem partes da capoeira no cenário do terceiro milênio que estamos vivendo.
M.C. — Nesse contexto em que a capoeira se espalhou pelo mundo, mas também corre o risco de perder parte de sua essência, como o livro "Raízes da Capoeira" pode ajudar a fortalecer a identidade e a tradição da arte para as atuais e futuras gerações?
M. Skisyto — A tradição que nos afeta a todos é produto de uma história que nos foi contada até certo ponto. Eis que a História sempre foi contada pela perspectiva do dominador, ou seja, o antigo escravagista que nunca contou a história de modo claro e esclarecedor. Fomos formados em uma história incompleta. Sem juízo de valores sobre um dos mais bárbaros momentos da nossa evolução histórica. O nome desse barbarismo é Escravidão.
Pela falta de uma maior clareza no significado cruel dessa página da nossa trajetória, a maioria praticamente folcloriza a dor da escravidão. Esse livro busca dar uma dimensão mais ampla aos impactos que a capoeira, enquanto reação ou um produto direto da escravidão, sofreu em sua caminhada até o presente momento que a vemos.
Temos também o terrível costume de resumir, reduzir a história da capoeira a uma herança africana simplesmente. Não é só isso! Neste livro, eu fiz uma exploração das principais influências que a capoeira sofreu até que chegasse aos nossos dias. Formato, modus operandi (metodologias e a maneira como os capoeiristas vivem e a dirigem). Essa visão está disponível neste livro. Mesmo sabendo que uma grande parte dos capoeiristas já se sentem como se soubessem de tudo.
M.C. — Muitos jovens mestres e professores estão levando a capoeira para novos países e culturas. Que conselhos o senhor daria para que eles mantenham viva a história e valores da capoeira, mesmo longe do Brasil?
M. Skisyto — Esse é um dos grandes desafios que já havia percebido em meu primeiro livro ("Capoeira, o Caminho do Berimbau"). Ali eu percebi que NINGUÉM teria acesso ao conjunto da população capoeirística do mundo. Na época bem menor o contexto, hoje isso se reveste de um desafio muito maior. Todos nós escolhemos nossos parceiros, nossa equipe de trabalho, elegemos os nossos mentores nos quais acreditamos que irão seguir nossos preceitos e nossa linhagem. Isso tudo é ótimo.
O problema é quando você escolhe não se conectar com outras correntes da capoeira, tipo pessoas que a estudam, "pois isso não nos interessa". "Se não interessa eu não me envolvo. Se não me envolvo não me influencia". Assim, por mais otimista que eu seja, jamais vou acreditar que TODOS os capoeiristas irão agir sob a influência de alguém que não é seu próprio mestre ou alguém que ele decida se ligar, se unir, se filiar.
Os grupos estão muito fechados em si ainda. Mesmo alunos nossos não nos seguem, por falta de condições intelectuais, por desinteresse, ou ideologias estranhas, como religiões ou políticas. A única e verdadeira sugestão que faria, seria para que todos os que queiram ampliar seus conhecimentos se abram para receber novos insights, novas visões, novas ideias, novas questões inclusive, para pensarem.
M.C. — A capoeira é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Como o senhor acredita que obras como a sua podem contribuir para que essa tradição não só se preserve, mas também evolua sem perder sua essência?
M. Skisyto — O futuro é um lugar muito obscuro. Ninguém até aqui conseguiu de verdade antever. Mas uma visão me parece algo inegável: a capoeira irá crescer por todo lado! Isso irá representar novas demandas, principalmente de produtos intelectuais, como livros, filmes, vídeos, etc. Aí estaria provavelmente um dos caminhos que eu incentivaria: a produção diferenciada da capoeira, trabalhos acadêmicos ou dos chamados intelectuais orgânicos, definição que se refere aos conhecimentos que a capoeira tem potencial de produzir, que é praticamente infinito!
M.C. — M. Skisyto, para finalizar, gostaríamos de ouvir um pensamento seu, um recado que ecoe entre capoeiristas do mundo inteiro. Algo sobre raiz e futuro, tradição e inovação, Brasil e mundo. O que o senhor diria?
M. Skisyto — Eu sou um homem completamente apaixonado pela Capoeira. Isso me torna um entusiasta incondicional sobre o seu potencial de emancipação do ser humano que a conhece e que a pratica! Essa é uma faceta que a capoeira jamais pode perder. Sua missão de ser o resgate da nossa dignidade enquanto herdeiros de uma tragédia que humilhou e escravizou nossos antepassados, temos a obrigação de fazer o mundo reconhecer nossa Arte como a mais revolucionária herança que nossos ancestrais nos legaram.
Só assim a Capoeira terá cumprido seu papel e seu destino de resgate das dores e do desespero de nossos ancestrais que ainda ecoam em nossas consciências!
M.C. — Muito obrigado, Mestre, por compartilhar sabedoria e emoção. Que "Raízes da Capoeira" inspire novas gerações a honrar o passado e construir o futuro dessa arte com a mesma grandeza que o senhor o faz. Axé!