Mestre Caboré: Arqueólogo social encontra o elo entre capoeira Angola e Regional.
#ENTREVISTAMestre na roda e na escola. Arqueólogo social encontra o elo entre capoeira Angola e Regional.
R.M. — Como sua formação em Educação e experiência na rede estadual moldam sua abordagem pedagógica para ensinar Capoeira Angola e Regional a jovens em escolas formais (como a EEEP Aderson Borges)? Quais as diferenças e semelhanças na didática aplicada a cada estilo?
M. Caboré — Essa pergunta é muito interessante e instigante. Interessante porque vai em um ponto pouco problematizado no universo da capoeira e instigante porque ao problematizar, fazemos um exercício de reflexão. Para responder as perguntas é necessário buscar compreender que hoje as redes de educação são voltadas aos interesses do mercado. A educação brasileira tem sido conduzida pelos institutos "filantrópicos" de grandes grupos financeiros. Para essa condução, esses grupos têm representantes, com poder de voto, em todos os lugares e níveis da educação brasileira. Dessa forma, nossos/as gestores/as políticos/as não estão preocupados/as com a educação da população, mas sim no alcance de metas, índices e etc, estabelecidos por tais institutos "filantrópicos".
Compreendida a roda e o jogo em que a educação brasileira se encontra é possível refletir sobre minha abordagem pedagógica. Assim, sendo eu formado em Artes Visuais, com especializações no universo cultural brasileiro e sendo doutorando em educação, digo que essa formação muito contribui para minha atuação em sala de aula, pois elas me dão a capacidade, do ponto de vista formal, para a abordagem sobre a cultura e a história das manifestações culturais afrodescendentes brasileiras, em especial a capoeira.
Quando pensamos em capoeira, logo diagnosticamos estilos e assim, criam-se dicotomias: Capoeira Angola / Capoeira Regional, Capoeira Luta / Esporte / Capoeira Cultura, etc. Ao meu ver essa separação foi importante em um momento no início e meados do século XX, por estarmos vivendo aquela época um período de eugenia no Brasil. Os líderes da capoeira souberam olhar para esse momento e construir mecanismos para burlar, principalmente, a Lei de Vadios e Capoeiras, que perseguia não apenas capoeiristas, mas toda a população negra, recém "liberta" das senzalas. Toda a cultura afro-brasileira era perseguida, era a tal Limpeza social, o processo de branqueamento da nação.
É preciso também refletir de que capoeira estamos falando. As vezes queremos falar da capoeira antiga, com base nas organizações que hoje chamamos de Capoeira Angola e Regional. Mas como compreendo que a pergunta versa sobre a capoeira dita moderna e compreendendo que a pergunta me leva ao questionamento sobre o ensino da capoeira por meio de uma possível atividade prática, respondo que nessa escola de hoje não há espaço para capoeira, nem tampouco para outras atividades que não estejam curricularizadas, isto é, nas grades curriculares escolares. Talvez um/a professor/a de educação física escolar consiga adaptar algum momento de sua aula para a prática da capoeira, mas essa será conduzida apenas por um contexto de esporte/luta. Por ser professor de artes, no meu caso específico e pensando no ensino da prática da capoeira, não há brecha curricular para fazer essa manobra. Assim, tenho que buscar horários extracurriculares, muitas vezes em horários fora do horário de trabalho, para o ensino da capoeira. Por outro lado, em minhas aulas curriculares de arte, utilizo a capoeira enquanto uma manifestação cultural afrodescendente brasileira e assim, consigo ensinar a capoeira cultura, sua história, seus valores, suas ancestralidades e principalmente sua relação com a África e outras manifestações culturais afrodescendentes brasileiras.
Assim, no contexto das diferenças e semelhanças dos estilos de capoeira Angola e Regional, percebo que os movimentos corporais são praticamente os mesmos. Inclusive, os novos estilos capoeirísticos de hoje se utilizam de praticamente todos os movimentos corporais de antigamente. Então a diferença se estabelece no método de ensino. Mestre Bimba, junto aos seus alunos cearenses criou, a partir dos movimentos já existentes da capoeira, uma sequência de ensino. A partir disso os outros capoeiristas baianos entregaram ao Mestre Pastinha a missão de organização da capoeira, que passou a ser chamada de Capoeira Angola.
Se percebemos, utilizamos uma forma geral de ensino e aprendizagem que surge lá na eugenia. As nossas costumeiras filas para organização e os exercícios calistênicos por exemplo, são oriundos da educação física militar da época. Essas metodologias de ensino viraram uma marca retórica, onde você for vai perceber que ainda hoje adotamos esse tipo de organização para a transmissão de conhecimentos e prática da capoeira em nossas academias. Aí você pode perguntar sobre a roda. E eu lhe respondo com outra pergunta: A roda, desde a invenção das competições, tem sido um momento de aprendizado ou de disputa? Perceba que antes os capoeiristas se reuniam para jogar na roda como aprendizado e momento de lazer, descontração, etc. Após o início do século XX a roda se tornou um ringue. O capoeirista de antigamente — antes da criação da Capoeira Regional e organização da Capoeira Angola — só utilizava a capoeira Luta em momentos em que se via perseguido. A utilidade era para sua sobrevivência física e cultural e a roda era o espaço de aprendizagem.
Dessa forma essas diferenças vão se estabelecer no âmbito escolar a partir do aprendizado pessoal de cada professor/a de capoeira. Isso nos leva a uma outra reflexão sobre esse aprendizado pessoal, que ao longo dos anos tem deturpado a capoeira.
Mestre Caboré discutindo a importância da capoeira na educação formal.
R.M. — Ensinar tanto a Capoeira Angola (com sua ritualidade e filosofia ancestral) quanto a Regional (com sua dinâmica e inovações) na estrutura curricular formal exige estratégias distintas. Como você equilibra a preservação da essência específica de cada estilo, tornando-as significativas dentro do ambiente escolar?
M. Caboré — Eu acredito que a essência da capoeira é a mesma. Mas concordo que ao longo do tempo tem se criado outras linguagens (vou chamar assim), que muito me preocupa. Quanto à Capoeira Regional, Mestre Bimba, embora seguindo uma cartilha eugênica, preservou a essência africana. Mestre Decânio aponta isso em seu livro "A Herança de Mestre Bimba". Mestre Pastinha também fez isso, ao organizar nos moldes eugênicos da época, a capoeira Angola.
As escolas de hoje, submetidas ao mercado e tendo muitos/as gestores/as que trazem suas culturas religiosas para o âmbito escolar, são escolas que não abrem espaço em seus currículos para o ensino de cultura, muito menos cultura afrodescendente. Desse modo, uma prática de capoeira que busque valorizar suas ritualísticas e seu legado ancestral africano não encontra ambiente próspero nas escolas.
Os/as capoeiristas, por sua vez, que estão cada vez mais aprendendo uma capoeira distante de suas raízes ancestrais e culturais, só enxergam a capoeira enquanto um movimento desportivo de disputa e competitividade e assim, quando se consegue algum lugar na educação é por esse caminho. Um caminho dentro da educação física escolar que majoritariamente tem se traduzido em uma atividade desportiva isolada nela mesma.
A educação formal nos exige um jogo dentro dessa formalidade. Muitos/as capoeiristas não conseguem enxergar isso e muitos/as outros/as não querem enxergar. Mas é importante frisar que os/as capoeiristas professores/as de educação física escolar têm, aos poucos, conseguido inserir a capoeira mesmo que informalmente e apenas abordando uma de suas vertentes nas estruturas curriculares. Devo também dizer que muitos/as educadores/as físicos capoeiristas têm buscado olhar para além de uma prática desportiva, trazendo os valores culturais da capoeira para suas aulas. Mas isso ainda é muito tímido, frente ao universo de capoeiristas que temos no Brasil.
Todo/a capoeirista fala que a capoeira é arte, é cultura, é dança, é luta, etc, mas na hora de ensiná-la, seja em nossas academias e principalmente nas escolas, a capoeira só é ensinada em seu aspecto luta. Mestre Pastinha dizia que a capoeira tem três partes. Será mesmo que não conseguimos ver a capoeira para além da luta? Para além daquela parte que está a frente de nossos olhos? Ao meu ver essas características: arte, cultura, dança, têm soado como uma enorme demagogia de muitos/as capoeiristas. Assim, acredito que para termos uma capoeira significativa na educação, ela deva ser abordada em todas as suas facetas e dentro das várias disciplinas curriculares.
R.M. — Tendo se especializado em História e Cultura Afro-Brasileira e atuando com GRUNEC, como você articula tanto a Angola quanto a Regional como instrumentos de combate ao racismo, promoção da igualdade racial e fortalecimento da identidade negra? A abordagem é diferente para cada estilo?
M. Caboré — Não vejo diferença de abordagem para cada estilo, uma vez que a essência de ser capoeirista é combater o racismo e a intolerância religiosa. É ser a favor da igualdade de gênero e raça. É ser contra qualquer política neoliberal, fascista e ultra direitista que busque o apagamento das culturas e tradições afro-brasileiras. Afinal a capoeira surgiu em um contexto de luta, de luta por sobrevivência, não apenas física, mas simbólica, cultural, ancestral.
O problema que temos é o seguinte: hoje temos capoeiristas que em sua essência não são capoeiristas. São grandes e importantes jogadores e atletas de capoeira! Essas pessoas pouco se importam com a ancestralidade, a história, a cultura e o legado social da capoeira e de quem a criou. De quem trouxe para cá os elementos ancestrais e culturais para que surgisse a capoeira e outras várias manifestações culturais afrodescendentes brasileiras.
O que mais vemos hoje no universo capoeirístico é a negação dessa ligação com a África e suas culturas. Então, a abordagem não é diferente. Não era para ser. Se é diferente é porque temos uma população capoeirística que pouco se importa com o legado e a cultura africana no Brasil e isso tem levado a uma inversão de valores e tornado o universo da capoeira num lugar de fortalecimento de indiferenças, racismo, preconceitos e principalmente, de intolerância religiosa.
R.M. — Sua graduação em Artes Visuais oferece uma perspectiva única. Como você integra elementos visuais (gestualidade, símbolos, expressão corporal, fotografia, projeto visual) e outras linguagens artísticas ao ensino da Angola e da Regional, enriquecendo a compreensão dos alunos sobre a capoeiragem como expressão cultural total?
M. Caboré — Atualmente, tenho me dedicado ao universo da Capoeira Angola. Confesso que tenho me assustado com o que hoje muitas pessoas chamam de Capoeira Regional, as pessoas só conseguem olhar para um único aspecto, a luta. E essa luta se traveste de várias outras coisas, tais como: quem é mais forte, quem é maior, quem é mais bonito, quem tem mais e por aí vai. Também me assusta, pois em toda convivência que tive e que ainda tenho com vários mestres da Capoeira Regional, alunos diretos de Mestre Bimba, eu nunca vi neles um posicionamento estrito de que a Capoeira Regional era apenas uma Luta. Se percebemos tem-se toda uma ritualística, fundamentos e um método de aprendizagem em sua prática. As pesquisas do Mestre Xaréu nos confirmam isso. Sempre aprendi que a capoeira, seja Regional ou Angola, é uma vivência e isso diz muito!
Tendo então aprendido que a capoeira é uma vivência e tendo observado que muitos/as capoeiristas de hoje, ditos/as Regionais, pouco se importam com essa característica de vivência, tem alguns anos que me dedico ao aprendizado da Capoeira Angola. Isso porque acredito ser necessário a todo/a e qualquer capoeirista conhecer, se envolver e vivenciar a Capoeira Angola. Mas, também, porque essa compreensão de necessidade me foi formada a partir da educação que tive, onde fui educado a valorizar e a respeitar a Capoeira Angola, por ela ser a origem de toda capoeira existente, e principalmente por termos raízes na Capoeira Angola.
Em nosso projeto, Escola de Capoeiras, temos essa perspectiva da vivência em Capoeira Angola. As artes nos oferecem a perspectiva de uma compreensão da capoeira enquanto uma manifestação cultural afrodescendente brasileira e assim, integramos aspectos culturais afrodiaspóricos a partir do estudo e prática da Capoeira Angola. Isso por si só viabiliza a criação de um repertório artístico e cultural baseados na cultura afrodescendente brasileira. A criação desse repertório reconstrói uma ligação que desde a política da eugenia no Brasil tem se quebrado, que é a ligação direta da cultura brasileira com a cultura africana. E isso não se encontra apenas na característica da prática, mas principalmente na característica filosófica, do estudo, da reflexão. Lembra das três partes de capoeira que Mestre Pastinha falava? Nossa busca são as outras duas partes. Aquelas que poucos/as capoeiristas querem ver.
R.M. — Qual o papel do Mestre/Professor na responsabilidade de transmitir não apenas os movimentos, mas o conhecimento histórico, cultural e filosófico ligado tanto às raízes ancestrais da Angola quanto ao contexto histórico de criação e desenvolvimento da Regional, evitando o esvaziamento cultural de qualquer uma das vertentes?
M. Caboré — O papel do/a mestre/a é fundamental. Mas qual é o/a capoeirista brasileiro/a que gosta de estudar, ler e questionar sua própria história? É preferível e mais fácil reproduzir a fala equivocada de um determinado grupo ou pessoa por essa se encontrar em ascensão financeira e assim representar aquilo que deu certo. Lembre-se que estamos na onda de que, quem tem mais seguidores tem razão em tudo. A ciência, a pesquisa, o estudo e a coerência têm sido trocados por vídeos de 15 segundos. Um/a youtuber no Brasil é mais importante que um/a professor/a e com isso são propagadas ideias e desejos pessoais de determinados grupos que alienam a sociedade. A capoeira enquanto um fenômeno social não fica fora disso e assim, os/as capoeiristas são sutilmente alienados/as e cooptados/as a defender coisas contra eles/as mesmos/as.
Portanto, o que temos vivenciado ao longo dos últimos anos é que tem havido uma deturpação da capoeira, principalmente em seu aspecto sociocultural. Tem-se negado diariamente sua ligação com a cultura africana, principalmente em seus aspectos religiosos. Os capoeiristas de antes negavam por estratégia de sobrevivência e os de hoje negam como uma estratégia de apagamento. Então já temos na atualidade, o fenômeno de uma prática de transmissão de capoeira, totalmente desconectada de sua origem. Vemos, diariamente, a propagação de invenções sociopolíticas que desvirtuam aspectos da capoeira para negar suas africanidades e afrodescendências.
Acredito que o fato de se propagar e se defender a capoeira apenas enquanto uma atividade de luta faz, eficazmente, esse papel de esvaziamento cultural da capoeira. É perceptível que ao longo dos anos a capoeira tem sido pasteurizada para atender a determinadas demandas sociais e isso tem empobrecido diretamente esse aspecto cultural ao ponto de hoje termos capoeiristas sem o mínimo de propriedade sobre a história da capoeira e sua relação com a cultura Africana.
Aí quando o/a capoeirista vai para escola e tem que fazer a aplicação da Lei 10.639/2003 — que muitos/as não sabem nem do que se trata — ele/ela vai ensinar apenas movimentos de capoeira, numa perspectiva de luta e, dessa forma, invés de contribuir para uma educação cultural, antirracista que valorize as raízes culturais afrodescendentes brasileiras, essa pessoa vai, na verdade, contribuir para estigmatizar ainda mais a cultura e as raízes Africanas e afrodescendentes brasileiras.
R.M. — Baseado em sua experiência e no NEGRER, como ambos os estilos de capoeira podem ser portas de entrada efetivas para a implementação da Lei 10.639/03 nas escolas? Como cada um contribui de forma específica para o ensino da história e cultura afro-brasileira?
M. Caboré — Acredito que seja muito simples: os/as professores/as de ambos os estilos devem valorizar as raízes da capoeira. Devem, no mínimo, seguir os preceitos dos Mestres Pastinha e Bimba. Em minha dissertação de mestrado, pude evidenciar os aspectos e contribuições da capoeira para a educação, e não há nada de novo ao/à capoeirista que se interesse minimamente em estudar e respeitar o legado africano que a capoeira carrega. Esses aspectos e contribuições nos são ensinados em nossas vivências diárias, ou pelo menos eram.
Outro aspecto fundamental e importante é o/a professor/a de capoeira compreender que a educação formal, a escola, não é a academia dele/a e que ele/a tem que se adequar às Leis educacionais. A LDB, que muitos/as não se interessam nem em saber o que é.
Mestre Caboré no berimbau, comandando uma roda da Terreiro Capoeira.
R.M. — Malícia, Jogo e Mandinga: Como ensinar e valorizar os aspectos fundamentais da Capoeira Angola e da Regional que transcendem a dimensão marcial como a malícia (malandragem), o jogo de cintura, a teatralidade, a mandinga e a construção coletiva para alunos iniciantes e professores em formação? Existem ênfases diferentes em cada estilo?
M. Caboré — Já falei isso anteriormente de forma generalizada. Acredito que a ênfase diferente se encontra no método. A capoeira Regional tem um, a Angola tem outro e os/as professores/as em suas realidades escolares adaptam esses métodos aos seus métodos didático-escolares, que são diferentes dos métodos de ensino e aprendizagem da capoeira em nossas academias. Dito isso, vejo que, com base no que a LDB determina, o ensino e a valorização ideal de um ensino/aprendizagem de capoeira no universo escolar e ou universitário é um ensino e aprendizagem sobre a capoeira e não um ensino e aprendizagem que pretende formar capoeiristas. Compreende a diferença? Compreende a minha fala anterior quando digo que o ensino na escola é diferente do ensino em academia? Compreende porque eu falei que os/as capoeiristas têm que buscar compreender a LDB e a cultura escolar?
Então, não é ênfase diferente de estilos. É ênfase diferente de abordagem, de diálogo nas escolas e universidades. E também, e principalmente, ênfase na cultura africana e afrodescendente brasileira. E deixar de acreditar que levar uma prática de capoeira às escolas e universidades, no intuito de crescer um grupo e formar novos/as capoeiristas, é o suficiente e o ideal. Não é! Como falei, a educação e as escolas brasileiras não são as sedes de grupos de capoeira. Os objetivos são outros!
R.M. — Sua especialização em Arqueologia Social Inclusiva oferece alguma perspectiva específica sobre a preservação, documentação e interpretação da história e significados culturais tanto da Capoeira Angola quanto da Regional, especialmente no contexto do Cariri? Como isso se reflete em suas ações e projetos?
M. Caboré — Olha, tenho percebido que o estudo tem sim contribuído em meus projetos e amadurecimento sobre a capoeira. Quanto ao curso de Arqueologia que a pergunta se refere, esse curso me proporcionou uma visão sobre as políticas e os sistemas culturais do Brasil. Me fez compreender o papel das instituições nacionais e suas importâncias à preservação de nossa cultura.
Além disso, o curso me proporcionou um olhar específico à necessidade de preservação da memória. Infelizmente, não encontramos em nossos pares essa sensibilidade, até porque eles/as estão envoltos naquela parte da capoeira que Mestre Pastinha fala que está aberta à visão de todos/as. Perceba que se trata de uma cadeia de acontecimentos e que um se conecta e leva ao outro. Assim, os cursos de especialização em Arqueologia e em História, foram especializações que proporcionaram o aprimoramento de reflexões e estas me levaram a pensar a pesquisa de mestrado, que por sua vez me trouxeram à pesquisa de doutorado. Em ambas as pesquisas o tema central tem sido a capoeira na educação e isso se reflete, de forma muito especial e importante, em minha atuação docente na escola, na universidade e no Projeto Escola de Capoeiras, pois são experienciados aspectos da capoeira que vão para além de uma prática de treino de academia de capoeira, já que não estamos preocupados em formar um grupo de capoeiristas que carregam uma bandeira, mas nos interessamos em compartilhar e construir conhecimentos em torno daquilo que nos move, a capoeira!
R.M. — Quais conhecimentos essenciais (além da técnica corporal e musical) você considera imprescindíveis na formação de novos professores/mestres que atuem com Angola, Regional ou ambos, levando em conta as demandas sociais, educacionais contemporâneas e a luta contra o apagamento histórico? Como abordar a história e as tensões entre os estilos de forma ética e construtiva?
M. Caboré — Acredito que já respondi essa primeira pergunta anteriormente. Entendo que o Brasil de hoje, a sociedade, tem exigido algo mais além do que exímios/as atletas e lutadores/as de capoeira. Os/as novos/as professores/as e mestres/as de capoeira têm que compreender que não dá mais para suprir as demandas exigidas, apenas com uma boa desenvoltura corporal, força e valentia, com treino físico e roda. Temos Leis que possibilitam a inserção da capoeira no universo escolar. Portanto, temos que formar profissionais que além dessas qualidades, possam trazer conhecimentos sobre as raízes da capoeira, sobre a importância, as relações e influências das culturas africanas para a constituição da cultura brasileira.
É urgente que existam mais capoeiristas compromissados/as em defender esse legado africano em nossa cultura. Se não queremos apagamento histórico temos que valorizar a história, mas a história real, aquela que parte de dentro para fora, dos afrodescendentes para a sociedade brasileira e não a história inventada para suprir a demanda elitista brasileira.
Quanto à abordagem, acredito que a primeira coisa que temos que fazer é procurar nos apropriarmos do conhecimento que nos foi negado, para poder nos contrapor ao conhecimento construído pelas elites brasileiras. O outro passo seria ocupar os lugares de tomada de decisão, para assim propor as reflexões necessárias para a luta contra o apagamento histórico e a favor da conscientização social.
Não vejo tensão entre a Capoeira Angola e Capoeira Regional, vejo pessoas que esqueceram os princípios basilares da capoeira e que ainda acreditam que as atitudes e comportamentos das décadas do início e meados do século XX — em que Mestre Bimba e Mestre Pastinha fizeram um movimento de esportivização da capoeira, pela necessidade de sobrevivência da capoeira, que se encontrava perseguida pela Lei e pelo processo de eugenia no Brasil — devem ser ainda cultuadas hoje no século XXI. Assim, vejo que se procurarmos compreender a história do Brasil, da capoeira, do africano e de nós, seus descendentes no Brasil, vamos certamente compreender as capoeiras Angola e Regional em suas particularidades e saber abordá-las com segurança, de forma ética e construtiva.
R.M. — Olhando para sua trajetória acadêmica e prática (Escola de Capoeiras, PROEX), quais são suas principais reflexões e anseios sobre o futuro da Capoeira Angola e da Regional como práticas educativas transformadoras e ferramentas de empoderamento dentro do sistema público de ensino e nas comunidades? Como vê a convivência e o diálogo entre essas duas expressões fundamentais da capoeiragem no campo da educação?
M. Caboré — Tenho defendido a capoeira como uma importante possibilidade de educação, não pelo seu aspecto prático, mas principalmente pelo seu aspecto cultural. Tenho refletido bastante sobre a atual deturpação que a capoeira vem sofrendo, que diz respeito ao silenciamento e apagamento dos valores e tradições africanas contidas na capoeira. O meu desejo é que mais e mais capoeiristas possam fazer o movimento sankofa e assim comecem a valorizar esse legado que a capoeira carrega. O futuro da capoeira na educação corresponde diretamente à compreensão desse legado cultural; enquanto estivermos deturpando a historicidade e a cultura da capoeira, estaremos criando uma capoeira que nada contribui na educação e na formação social brasileira, mas sim uma capoeira voltada aos interesses de uma classe social que pouco se importa com a capoeira e seus/as representantes.
Vejo que no campo educacional não deveríamos dicotomizar a capoeira, sei que isso é quase impossível, mas independente do estilo, na educação só deveria existir um lado, o lado da capoeira. Mesmo que esse lado seja defendido pelas suas duas vertentes, Angola e Regional.