Contramestre Rouxinol exibe duas peças raras de sua vasta coleção: a alma brasileira preservada por um capoeirista holandês.
#ENTREVISTAJeroen Verheul, o Contramestre Rouxinol, com quase 28 anos de dedicação à arte, transformou-se em pesquisador, compositor e guardião da cultura afro-brasileira. Nesta entrevista, exploraremos sua trajetória, sua relação com o Mestre Araminho, e o legado que constrói entre Rotterdam e o Brasil.
M.C. — Rouxinol, sua história com a capoeira começou em 1997, aos 14 anos. O que fez um jovem holandês se apaixonar por uma arte tão distante de sua terra?
Contramestre Rouxinol — Me criei em Rotterdam que é uma cidade portuária na Holanda. É o maior porto da Europa e também uma das cidades onde moram mais gente de fora que qualquer outra cidade na Europa. No final da escola primária, eu era o único menino holandês da minha turma, o único menino holandês da minha idade na minha rua, e os amigos holandeses que eu tinha saíram do bairro antes dos meus 10 anos e sobraram os estrangeiros com quem eu criei amizades. Assim eu me criei entre diversas culturas e me acostumei adaptar por vontade e necessidade também.
Eu sempre gostei de artes marciais e sempre quis praticar kung fu, ninjutsu etc, que os meus pais barravam. Me deixaram praticar judô mas nada que tinha chute ou soco. Em julho de 1997 vi um show de capoeira numa praça perto da minha casa com dois grandes capoeiristas: Araminho e Pica-pau e os seus alunos. Vi o Araminho andar e fazer mortal na parede algumas vezes em seguida e pensei: que incrível! Estou vendo golpes rodados, chutes, acrobacia e não estão trocando porrada, mas, se pega.
Vou pedir informações. Me aproximei na pessoa que me parecia o mais velho da turma (Araminho) e ele me deu um cartão. Passou uns meses e consegui convencer os meus pais pra eu observar e tentar uma aula. Naquela aula que assistiram comigo (cheio de iniciantes) não teve queda nem golpe com impacto. Toleravam e comecei. Me matriculei em janeiro de 1998. Depois do meu primeiro evento em maio naquele ano com diversos grandes Capoeiristas como Tucano Preto, Paçoca e Nô comecei a levar a capoeira a sério. Na capoeira eu achei muitas coisas que eu não conhecia e gostava e também vi diversos elementos do meu jeito de ser e interesses que encaixavam nos componentes da capoeira. Com o passar dos anos, isso só foi fortalecendo.
M.C. — Seu mestre, Araminho de Fortaleza, é uma lenda da capoeira no Ceará e na Europa. Como ele moldou seu caminho?
Contramestre Rouxinol — Quando conheci meu Mestre eu sabia que ele era bom de capoeira mas com o passar dos anos comecei a perceber como ele era raro e especial. Ele jogava com muito volume de jogo e com muitas transformações ricas, aplicando floreios com ataque e defesa, entrando e saindo nas horas certas e era uma festa ver aquele homem jogar.
Era um estilo de jogo não mastigado através de treinos específicos como tem muito hoje em dia, mas era uma coisa natural dele. Uma outra pessoa que conheci aonde vi isso também, era o Mestre Espirro Mirim. Meu Mestre sempre foi de visitar o evento de páscoa em Amsterdã organizados pelos Mestres Marreta e Samara. Lá vi ele jogar e se adaptar a qualquer estilo ou pessoa como por exemplo os Mestres Guará, Leopoldina, Liminha, iniciantes etc., não querendo apenas impor o seu estilo mas transformando em favor do próprio jogo. Nunca vi ele com arrogância, mesmo com tanto nível e nunca vi ele explorando alunos.
São vários valores dele que sempre levei comigo. Na época que comecei com ele eu também visitava ele no seu apartamento semanalmente por anos. Acompanhei ele em viagens, shows, fazendo compras na feira etc. Foi nessa convivência que eu acho que eu entendi muito mais sobre a capoeira, a cultura brasileira, Português etc. do que apenas nas aulas físicas, mesmo que meu Mestre sempre explicava coisas lá. Araminho também emprestava material que eu usava pra aprender. Assim me lembro que em 1999 eu já sabia os 2 primeiros CDs de Abadá de cabeça, pois eu podia fazer uma cópia dos CDs dele em fita k7. No mesmo ano eu comecei a estudar os toques do Silvio Acarajé que ele emprestou e em 2000 ele me deixou trazer um livro de Waldeloir Rego que ele tinha.
Como ele e diversos outros sempre dividiram comigo, eu tenho isto comigo de dividir com os meus alunos e a comunidade de capoeira também. Como ele foi o portal para o mundo de capoeira a que me decidi dedicar, ele teve um impacto forte na minha vida, pois capoeira realmente mudou os meus planos pro futuro, minha profissão, vida familiar etc.
A vivência nas rodas: Rouxinol e a comunidade da capoeira, construindo laços que atravessam fronteiras. No centro agachado Araminho.
M.C. — O nome 'Rouxinol' veio de seu talento precoce para cantar. Como a música se tornou sua linguagem na capoeira?
Contramestre Rouxinol — Antes de entrar na capoeira eu gostava de imitar hits, pop até ópera e gostava do hip-hop também. Assim eu tive uma sensibilidade pra melodias e ritmo antes de conhecer capoeira que facilitou o aprendizagem na capoeira que tem as suas melodias e ritmos próprios. Eu comecei a cantar na roda com 7 meses de capoeira e a compor com 10 meses. Além de ter vontade de fazer isso teve naquela época dois fatores que contribuíram a este processo: primeiramente, quando eu conheci o grupo de alunos do meu Mestre (que era uma corda roxa na época no Abadá Capoeira) não tinha aluno graduado. Principalmente porque o Araminho chegou na Holanda em 28 de agosto de 1995. Assim não teve tempo de criar alunos graduados em 3 anos e pouco.
Mas teve na época já um aluno Cabo Verdiano: Beto com corda amarela que tocava berimbau e cantava ao mesmo tempo, pra poder dar continuidade na bateria nos shows que a gente fazia. E como amarela é a primeira cor de graduação depois da crua no Abadá, pra mim era um requisito base tocar berimbau e cantar ao mesmo tempo quando tiver amarela, que eu consegui fazer em 1999. No Abadá também tinham publicado um livro com letras de integrantes do grupo na década de 90. Assim pra mim parecia lógico que compor fazia parte e como eu pensava bastante sobre capoeira e gostava do lado musical, comecei a escrever cedo. No início escrevia com um dicionário pois eu não falava Português ainda e descobri que muita coisa não funcionava em termos de rima e ritmo, até que consegui escrever músicas que encaixavam no ritmo.
A primeira vez que cantei uma música minha numa roda foi em 2000. A primeira vez que músicas minhas foram gravadas num estúdio foi no Rio de Janeiro em 2007 por Mestra Fafá de Canjiquinha. Atualmente canto às vezes umas músicas minhas mas prefiro que os meus alunos conheçam as músicas tradicionais primeiro.
A musicalidade como pilar: Rouxinol se destaca não apenas pelo jogo, mas pela profunda pesquisa dos ritmos e cantigas.
M.C. — Você compôs mais de 300 músicas e publicou livros como Ladainhas e Outras Cantigas (2011), hoje no acervo do Centro Nacional de Folclore do Brasil. O que move sua produção?
Contramestre Rouxinol — Eu sempre gostei de pesquisa, desde criança, eu juntava material, criava listas, gostava de criar uma visão geral sobre assuntos. Na capoeira não foi diferente e eu sabia muito bem, que eu não sabia e cada vez que eu aprendia mais uma coisa era apenas um novo pedaço aparecendo de uma quebra cabeça que sempre está se expandindo e diversas vezes é reinventada na visão de cada um. Eu notei que a musicalidade ficava pra trás na capoeira no meu redor. Aqui na Holanda tem algumas barreiras, que são a língua, e a falta de senso de ritmos básicos. Por isto comecei a escrever sobre a musicalidade. Eu dava workshops a partir de 2004 aonde eu anotava ritmos e letras e dava este papel para os participantes depois continuar o aprendizagem em casa.
Eu notava que muitas pessoas jogavam praticamente o mesmo jogo em qualquer ritmo e cantava o que sabia em cima de qualquer toque. Por isto comecei a escrever livros sobre o berimbau (2007) e o canto (2008) (que foi traduzido em Russo em 2010). São livros que tem um didática, que dão pistas para pesquisa e desenvolvimento e que falam um pouco sobre o contexto e raízes de cantos e toques. Em 2011 eu publiquei o meu terceiro livro sobre ladainhas e cantos de entrada com ajuda de Mestre André Lace no Rio de Janeiro. Este livro surgiu porque fiquei observando como pessoas queriam aprender as músicas na moda e mais novas, sem conhecer os clássicos dos discos dos Mestres Bimba, Pastinha, Traíra, Waldemar etc. E percebi que no internet as vezes não tinha as letras dessas músicas eu tinha outras versões.
Juntei informações dos discos também pois nem em todos os discos tem os dados de quem participa etc. Em 2013 eu já tinha juntado uma grande quantidade de discos relatadas a capoeira, o arco musical, folclore etc e decidi fazer um catálogo do material. No mesmo ano fiz também um livro pros meus alunos sobre os requisitos básicos que eu achava importante que eles sabiam e eram capaz de fazer pra obter as primeiras graduações. Nos livros que eu escrevo eu sempre gosto de inserir algumas coisas que vão mais fundos e fazer uma ponte entre a tecla e a prática. Que assim sejam obras que servem pra ler, com quem treinar, com quem pesquisar etc.
A minha produção de livros tem sido devagar nos últimos 10 anos. Principalmente porque eu queria ter ou saber certas coisas na íntegra antes de publicar certas obras e por muitas vezes eu mudei o índice dos livros que eu pretendi escrever cortando certo material, inserindo outro material. Eu não olho pros meus livros apenas com o senso de um acadêmico crítico, mas também levo a dinâmica entre a obra e o leitor em consideração além da dinâmica entre os assuntos apresentados no livro. Assim tento produzir coisas que 1. Oferecem informações fortalecidas através de fontes. 2. São agradável em termos de consumo, visual e pelo um lado útil, 3. Que levam em consideração a junção, ordem e destaque dos elementos abordados. 4. Tem simbologias e mensagens indiretas pra quem tiver interessado a analisar.
Com a minha quantidade de músicas eu selecionei também o suficiente pra fazer algumas obras musicais, mas até hoje não lancei um disco pois faltam algumas coisas pra mim ainda.
M.C. — Em 2021, você ganhou o prêmio de vice-campeão no Festival Galo já Cantou, cantando sobre a Capoeira no Rio de Janeiro. Como um holandês 'fala' o Brasil através da música?
Contramestre Rouxinol — Neste caso foi um festival aonde tinha duas categorias. Um era sobre músicas de capoeira em geral e a outra era sobre a Rio de Janeiro. Como eu gosto muito do Rio de Janeiro e da capoeira eu pensei que seria legal escrever uma música mencionando muitos Mestres morando lá. Acho que faz diferença quando você canta e descreve coisas e pratos que você chegou a conhecer pessoalmente. No meu caso estive no Rio de Janeiro doze vezes a partir de 2002 e conheci diversos Mestres de lá e seus alunos ou família.
Continuo indo pra lá e sempre tem mais coisas e pessoas pra conhecer, rever etc. Participei num festival de músicas organizada pela Rádio Capoeira, Kilombarte e Mestre Paulão kikongo em 2020 aonde eu tirei o segundo lugar e utilizo a minha pesquisa literária junto com a pesquisa no campo e a vivência nas rodas e o reflexo da vida como base pras músicas. Acho uma música legal quando além de ter um ritmo, melodia e energia legal, a música também tem um fundamento: atrás, fala uma coisa que faz sentido, fiz diversas coisas ao mesmo tempo etc. E acho que quando alguém se envolve num mundo de forma profundo, atravessando, analisando, ele ou ela é capaz de descrever o mundo num jeito que dê uma satisfação a quem vive naquele mundo. Acho que também é uma questão de mente aberta, empatia, dedicação e espiritualidade.
Reconhecimento oficial: Certificado do projeto "Galo Já Cantou", um marco na trajetória de preservação cultural do Contramestre.
M.C. — Seu acervo particular é um tesouro: gravações, livros raros, entrevistas com mestres. Qual o achado mais precioso?
Contramestre Rouxinol — Eu poderia mencionar diversas coisas como um livro do Mestre Pastinha autografado por ele ou livros do acervo do Mestre André Lace ou o disco de vadiação mas pra mim na verdade, são os encontros que eu tive com os Mestres e suas famílias. Eu sempre tentei visitar o máximo possível das pessoas mais antigas e importantes na capoeira e a cultura afro brasileira pois teve tantos Mestres que eu já não conheci que eu queria ter conhecido. Pra mim essas vivências e trocas de energia, não tem preço. Eu poderia citar mais que 500 desses encontros mas não começo a contar pois "Se eu contar fica uma coisa muito longa... que parece que eu estou no céu".
M.C. — Como professor, você formou discípulos como Bonequinha, Colosso e Focado. O que ensina além dos golpes?
Contramestre Rouxinol — Principalmente pra levar a visão da capoeira num olhar para própria vida. Que existem diversos visões, caminhos e sutilezas e que é ótimo pra não ser dependente de uma didática mastigada, mas ao observar, perceber e aprender o máximo que a vida tem pra lhe oferecer. A capoeira é uma coisa ampla, misteriosa e poderosa e cada um tem um caminho próprio a trilhar. Ninguém vai entender exactamente tudo no seu jeito e ninguém terá o entendimento e valorização que merece, que pode criar uma certa solidão ou decepção, mas quando fizer por capoeira porque é uma coisa boa pra fazer terá satisfação e a capoeira tem as suas peneiras e intercâmbios de energia que diretamente e indiretamente ajudarão a fortalecer quem fortalece as suas.
Capoeira serve pra muitas coisas na vida. Poucos na capoeira se aproveitam em tudo que a capoeira oferece. É importante criar uma consciência do impacto positivo que a capoeira pode ter em várias áreas da vida, seja saúde, saúde mental, social, controle, energia, colaboração, conhecer as suas (id)entidades etc. Antigamente tinha menos capoeiristas e mais personalidade própria dentro do coletivo e o amor e as capacidades eram grandes, hoje eu admito o capoeira se prestar pra certas coisas.
M.C. — Você estuda psicologia e aplica isso no ensino. Como a capoeira transforma vidas?
Contramestre Rouxinol — Capoeira é um bom meio pra mostrar que muitos limites são criados pelo próprio cérebro e que muita coisa é possível se alguém se dedicar e aprender passo por passo. Tem diversas coisas pra enfatizar da capoeira como o lado psicomotor da capoeira, o lado de controle corporal e emocional, o lado de auto-estima e humildade, o lado de sintonia musical e energético, hierarquia, ancestralidade, malandragem, comunicação não verbal e o domínio desta. Melhorando estes elementos, terá um impacto bom no trabalho de dia a dia, na comunicação de dia a dia pois a vida nos cobra bastante adaptação, controle e a utilização de oportunidades, coisas que na roda são lapidadas. Vale pra cada um perceber as paralelas.
M.C. — Mestre Araminho diz que 'capoeira é arte da adaptação'. Como isso se reflete na Aldeia?
Contramestre Rouxinol — Mesmo que nós temos no grupo Aldeia a nossa técnica e treinos, todos os mais graduados jogam diferente. Cada um tem uma ginga diferente, gostam de combinações diferentes na roda, tem um bio-tipo diferente e enquanto tem semelhanças nas aulas, cada um acrescenta coisas que ele acha importante por momento. Nos eventos que organizo, faço questão de convidar os amigos e nesse caso, são pessoas de linhagens diferentes. Pra mim é muito enriquecedor ter a possibilidade que os meus alunos aprendem a jogar com alguém que tem um estilo parecido com Abadá, Cordão de Ouro, Angola ou outros estilos, pois a diferença nas bases, obriga a gente a ter mais atenção no jogo e nós convida as vezes pra sair de um padrão, que acho muito bom.
Pra mim "a técnica" sempre foi feito pra suportar o capoeirista, mas não pra limitar. Tem pequenas coisas que mudei na minha técnica depois de 20 anos depois de analisar a vulnerabilidade na prática. Então jogando com diversos estilos é que se nota se você realmente sabe se adaptar em seu favor. E em termos de se adaptar e criar um jogo muito rico, nosso Mestre Araminho sempre foi uma grande inspiração. Ele teve um domínio de corpo que nenhum aluno dele aqui teve e já vi ele transformar se protegendo no meio de floreios de forma espontânea, que não foi treinada. É muito legal poder ver esse conjunto de talento, dedicação, criatividade e espiritualidade mostrar "Joian" no jogo.
M.C. — Você diz ter 'um coração especial com Brasil'. O que o Brasil te deu que a Holanda não poderia?
Contramestre Rouxinol — Eu poderia citar diversas experiências que eu tive no Brasil, que eu normalmente não teria na Holanda, mas pra resumir uma resposta seria o tipo de conexões espirituais que eu tenho no mundo Afro-Brasileiro: me comovem a fazer o que eu faço.
Tem o ditado: "Quem ama, cuida". Acho que eu estou agindo dessa forma, saindo um pouco do padrão de jogar, tocar, cantar e dar aula, que já é ótimo pra capoeira.
Eu notei diversas pessoas no mundo de capoeira com boas contribuições e pouco mencionadas. Decidi tentar juntar e preservar a memória e conteúdo de diversas vertentes Afro-Brasileiras através de um Acervo. Assim me dei um responsabilidade pro mundo de capoeira e tento fazer o que posso pra divulgar o que eleva capoeira e preservar o que dá, pras gerações futuro ter um entendimento maior do que a capoeira já foi e podia ser.
Rouxinol visitando o ABCA em Salvador em 2006. Mestres: Neco, Raimundo Dias, Brandão, Bigodinho, Virgílio, Gajé, Gildo Alfinete, Dr Leal, Boca Rica, Ciro, CM Rouxinol, Lobisomem, Pelé do Tonel.
M.C. — Seus livros inacabados são aguardados. Pode adiantar algo?
Contramestre Rouxinol — Estou escrevendo um livro no momento aonde mostro conexões entre pessoas no mundo Afro-Brasileiro. Acho bom, especialmente pra quem leva capoeira mais a sério, pra aprofundar no redor dela e nas raízes culturais ao passar do tempo. Quanto mais entendimento sobre a vida e filosofia dos Mestres no passado, mais entendimento terá e isso ajudará a criar coisas que iam agradar os Mestres da velha guarda se foram visitar uma roda.
M.C. — Como pesquisador, qual sua maior preocupação com a capoeira contemporânea?
Contramestre Rouxinol — Acho muito importante que as pessoas no meio de todos os desenvolvimentos tecnológicos não esqueçam da conexão humana, da presença, de dividir axé, de sempre olhar para o passado como referência pro futuro. A tendência é melhorar. Então vamos manter e preservar o que fortalece capoeira e ajustar o que não fortalece capoeira. Vamos valorizar capoeira começando com a valorização das pessoas que estão nela. E vamos planejar para o futuro. As nossas referências principais: Todos viveram/ nasceram no século passado. Daqui a um tempo não terá mais os Mestres que tiveram um grande impacto na capoeira entre 1950 e 1990 e em alguns casos nem terá mais alunos vivos desses famosos Mestres. É o fechamento de uma era que vai deixar muita gente ainda com mais saudades.
A geração de Mestres que está entre 40 e 65, daqui a alguns anos vai se tornar a mais velha geração. Com o passar dos tempos teve muito mais gente entrando na capoeira, mas na minha opinião, a porcentagem que realmente puxa a carroça, faz uma diferença com conteúdo de capoeira é bem limitada. Tenho visto um dilúvio de axé a partir da década de 90 pra agora. Enquanto no passado, achar novas informações na capoeira, era cruzar um deserto em busca de um oásis, hoje em dia com tanto acesso online, o desafio mudou. Como podemos alinhar os nossos alunos no que achamos essencial e prioridade, utilizando os meios que eles já usam, sem sair da essência de capoeira? Na esperança que sempre terá alguns que entram na capoeira e ajudam a elevar ela para um lugar na sociedade onde ela merece estar, reconhecida, valorizada e integrada.
M.C. — Ao fechar, que reflexão compartilha com jovens que iniciam nesta jornada?
Contramestre Rouxinol — Capoeira é muita coisa e tudo tá conectado. Não deixa os capoeiristas no seu redor, ser tudo que capoeira é, ela é maior. E se levar sério, se dedicando, você terá acesso a um mundo incrível que é capaz de fortalecer sua mente e saúde, sua comunicação e seu axé. É capaz de mostrar um ângulo da vida que muitos não percebem que é bem aplicável nas rodas da vida. Treina, roda, conecta, escuta, observa, analisa, estuda, ajuda, investe, dedica e seja feliz!
Foto evento Aldeia Capoeira 2023. Com entre outros: Professor Pererê, Instrutor Calango, Graduada Faquinha, Formando Conga, Formando Goteira, Professor Tempestade, Contramestre Gavião, Contramestre Feijão, Graduada Bonequinha, Graduado Focado, Mestre Italo, Instrutor Tatuí, Graduado Trovoada, Graduada Trançado, Formando Fartinho, Instrutor Vitamina, Mestre Araminho e Contramestre Rouxinol.