Juaci Araujo de Oliveira (Mestre Piqueno): Capoeirista, biólogo e fotógrafo documentarista unindo saberes.
#DEPOIMENTOMe chamam de Mestre Piqueno. Sou capoeirista, filho de torneiro mecânico e costureira, fotógrafo documentarista e biólogo. Pode parecer uma combinação de mundos distintos, mas para mim, tudo é uma coisa só. Tudo é luta, dança, ciência e cuidado. Hoje, venho falar com vocês, meus irmãos e irmãs de berimbau, sobre uma coisa que sempre esteve no sangue da capoeira, mas que precisamos chamar pelo nome: a ecologia.
A capoeira nunca foi, para mim, apenas uma sequência de golpes ou uma expressão artística. Ela sempre foi um instrumento de educação. A roda de capoeira é o primeiro planeta em miniatura com o qual temos contato. Nela, aprendemos lições que deveriam reger nossa relação com o mundo lá fora.
O Respeito pelo Outro e pelo Meio
Na roda, não há espaço para a individualidade destrutiva. Você depende do seu companheiro para fazer a roda girar, para tocar o berimbau, para cantar a ladainha. Se você é violento ou egoísta, a roda quebra. A harmonia é essencial. O que é isso, senão a mesma ética que precisamos para viver em sociedade e preservar nosso ambiente? O planeta é uma grande roda, onde cada ser, cada rio, cada árvore, é um elemento vital. Desrespeitar um é quebrar a harmonia de todos.
Foi essa consciência de coletividade, aprendida também na escola Terreiro Capoeira, fundada em 1979 no Ceará, pelo Sr. Reginaldo da Silveira Costa (Mestre Skysito), que é discípulo do Mestre Tabosa, que me levou para a praia, para o mangue, para as comunidades. Como biólogo, canalizei o axé da capoeira para o estudo e a proteção dos mamíferos aquáticos do Ceará. Fui um dos fundadores da AQUASIS porque entendi que a luta pela vida selvagem era uma extensão da luta pela cultura e pelas pessoas.
Projetos são Rodas a se Expandir
Coordenei e participei em várias instituições como educador e pesquisador e trago como exemplos; o "Projeto Brigada da Natureza" a "Rede Crescer com Surf" não eram, para mim, um trabalho distante da capoeira. Era a capoeira aplicada. Era usar a mesma energia para ensinar uma criança a dar uma rasteira ou para ensiná-la a recolher o lixo da praia. O movimento é o mesmo: é de cuidado, de destreza, de pertencimento.
No "Projeto Limpando o Mundo", que comando até hoje, vejo a ginga na ação prática. Não chegamos impondo, chegamos propondo. Não apenas recolhemos o lixo, mas conversamos, educamos, mostramos que aquele espaço poluído é a nossa roda maior, é onde vivemos, pescamos e jogamos capoeira. É a capoeira saindo dos terreiros e agindo na comunidade.
O Chamado do Berimbau: Seja um Capoeirista Cidadão
Então, meus camaradas, a pergunta que faço é: como nós, capoeiristas, podemos atuar como cidadãos ecologistas? A resposta está nos fundamentos mais básicos da nossa arte:
Um bom capoeirista observa o jogo, lê o movimento do adversário. Precisamos usar essa mesma percepção aguçada para observar o mundo à nossa volta. Perceber onde o lixo se acumula, onde o mangue está sendo destruído, onde a comunidade precisa de ajuda. Antes de agir, observe com respeito.
A ginga é a capacidade de se adaptar, de se mover com flexibilidade para não cair. O planeta está mudando, e precisamos dessa ginga para encontrar novas soluções: reduzir o uso de plástico, reaproveitar materiais, encontrar formas de consumo mais consciente. Não fique parado no mundo. Gingue!
Na capoeira, honramos nossos mestres e os mais velhos, pois eles carregam a sabedoria. Na ecologia, precisamos respeitar o conhecimento tradicional das comunidades, dos pescadores, das marisqueiras (com quem tenho a honra de trabalhar no RedeMaris/ LABOMAR/UFC). Eles são os mestres da natureza, os que sabem os segredos dos ciclos da maré e dos ventos.
Ninguém joga capoeira sozinho. A preservação ambiental também não é uma luta solitária. Articulem-se. Participem de conselhos comunitários, apoiem cooperativas de reciclagem, cobrem dos gestores públicos políticas ambientais efetivas. Seja no Conselho Gestor de uma Unidade de Conservação ou numa simples ação de limpeza na praia do seu bairro, estejam juntos.
A capoeira nasceu da resistência de um povo que foi arrancado de sua terra e precisou se adaptar e lutar para sobreviver. Hoje, a maior luta pela sobrevivência é a do nosso planeta. E nós, capoeiristas, temos no corpo e na alma as ferramentas para essa batalha.
Que o toque do berimbau não seja apenas o chamado para o jogo, mas o despertar da consciência. Que nosso movimento seja não apenas na roda, mas em defesa de toda a roda da vida.
A capoeira é verde, é azul, é de todos nós. Axé!